Euclydes da Cunha foi – e é – um escritor múltiplo, intenso e controverso e sua biografia não poderia ser diferente. Como homem, acreditava que sua vida deveria ser uma linha reta, mas seus caminhos fizeram-se tortuosos. Seus interesses, de uma multiplicidade genial, o levaram à formação na área de engenharia e matemática e, além de escritor, Euclydes foi autodidata em outras áreas, como a geologia e geografia. Seu primeiro artigo publicado, ainda em um jornal estudantil, trazia preocupações com a ecologia urbana, conceito em moda só dois séculos depois. Euclydes foi, sobretudo, um intelectual dedicado, um pensador versátil, um crítico da realidade brasileira. A sua literatura é interligada, de forma orgânica, com as ciências naturais, a história, a política e a filosofia e seus textos permanecem contemporâneos, mesmo passados 110 anos de sua morte trágica. A escrita de Euclydes, carregada de brasilidade, nos conduz ao conhecimento do nosso país fazendo encarar muitos dos nossos erros, e nos forçando a olhar de frente nossa própria identidade. Por isso sua leitura permanece atual e necessária.

Aproximar Euclydes da Cunha dos jovens leitores, e os de todas as idades, é um desafio gratificante. Através de sua biografia, podemos retomar a história e a escrita de Euclydes da Cunha, possibilitando o reconhecimento do Brasil por de sua ótica crítica, apresentada com riqueza literária. Um dos principais fatores que afastam os leitores de Euclydes da Cunha e de sua obra é a dificuldade em vencer os obstáculos de sua escrita culta, impregnada dos saberes científicos em voga em seu tempo. Em um contexto pedagógico, esse obstáculo não se torna menor, mas é vencido pelo próprio curso natural do ofício de ser professor, educador, mediador de leitura. Sempre é bom lembrar que, independente da disciplina lecionada, todo professor é professor de texto, pois a palavra escrita, lida e compreendida é instrumento e ao mesmo tempo objetivo inerentes ao ato de ensinar e aprender.

  Considerando a apresentação do universo euclidiano aos alunos do Ensino Fundamental e Médio, o professor pode optar por diferentes estratégias e recursos pedagógicos que possibilitem uma abordagem ao alcance dos alunos. A apresentação e estudo de sua biografia são apenas a porta de entrada para esse universo. O trabalho com fragmentos de texto pode atender às diferentes disciplinas, como Geografia, História, Biologia e Ciências, e não apenas às tradicionalmente encarregadas desta tarefa, como Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. A leitura de fragmentos de textos previamente selecionados, permite um contato com a obra do autor sem desfigurar a riqueza da linguagem apresentada por ele – risco que as releituras e adaptações podem oferecer.

Euclydes da Cunha produziu uma escrita muito diversa, por isso há grandes possibilidades no desenvolvimento de um trabalho multidisciplinar com os alunos, uma vez que é possível trabalhar além da leitura e da produção textual, conteúdos próprios às ciências naturais e sociais. Os textos euclidianos podem conduzir professores e alunos a temas atuais que recaem sobre aspectos ambientais, socioambientais, sociais, políticos e filosóficos que reforçam a contemporaneidade dos mesmos. Assim, os alunos leitores se apropriam do universo euclidiano, desmistificando a impossibilidade de transpor a barreira da linguagem culta e erudita apresentada pelo escritor.

É certo que, com o pouco tempo de trabalho em sala de aula, independente da disciplina trabalhada, não serão formados especialistas em Euclydes da Cunha entre alunos do Ensino Fundamental e Médio, mas acredita-se que assim seja possível plantar sementes de leitores críticos, com diferentes graus de admiração e orgulho por esse escritor brasileiro, cuja identidade cultural com nossa língua e história deve ser cultivada. Trabalhar diretamente com os textos euclidianos, vencer o desafio de sua leitura e poder compartilhar sua compreensão com outros leitores, aproxima-nos do universo euclidiano, permitindo constatar a contemporaneidade de seus textos, vencendo a barreira da linguagem ricamente empregada pelo escritor e estreitando realidades distanciadas não apenas geograficamente, mas também por mais de um século.  Além disso, trazer a obra euclidiana para as salas aulas, reforça o caráter intertextual de seus textos e permite a prática de atividades interdisciplinares e de transversalidade, tão apregoadas nos meios pedagógicos. Perceber o ambiente natural brasileiro, e sua gente, através do olhar crítico de Euclydes da Cunha permite aos alunos e professores envolvidos, aumentar a percepção de Brasil, a sua grandiosidade geográfica, social e ambiental, ajudando na consolidação do sentimento de pertencimento de uma mesma nação.

Diante das possibilidades do contato com a escrita euclidiana, resta-nos, então, uma reflexão que deve ser constantemente reforçada e compartilhada com a comunidade escolar: estava Euclydes da Cunha muito à frente de seu tempo ou estamos nós muito atrasados e descompromissados com o nosso próprio tempo? Vivendo em tempos atuais, com todos os aparatos tecnológicos disponíveis e toda facilidade de circulação de informação e ideias ao nosso alcance, qual deve ser nosso posicionamento frente às questões colocadas por Euclydes da Cunha? Qual deve ser a nossa atuação frente às questões socioambientais que nos são colocadas de forma urgente? Acredito que podemos responder a essa indagação apoiando-nos nas palavras do próprio Euclydes da Cunha: “ou progredimos ou desaparecemos”.

Fabiana Corrêa – Autora de “Era uma vez, Euclydes – para jovens leitores”

Categorias: Literatura

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